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21/04/2017 07h59
AS ÁGUAS VIRTUOSAS DE LAMBARY (4)- Antigos manuais de medicina popular

Ilustração: Referência à Água virtuosa da Campanha (a nossa água mineral), no Formulário ou Guia Médico do Brasil,  de Pedro Luiz Napoleão Chernoviz, 6a. edição, 1864


SUMÁRIO


Apresentação

Num domingo a farmácia cumpria seu plantão, estava muito quente e, depois do movimento da missa das nove, já quase nenhum freguês havia na botica, e o tempo passava lentamente, numa molengação só, com a modorra domingueira acometendo a todos, e eu lá, sem pressa, cozinhando o galo, folheando desatento um chernoviz a ver se encontrava notícias dos remédios da roça que a Mãe Véia costumava receitar: um emplastro de mostarda ou um escalda-pé com ervas ou um cataplasma de farinha de mandioca...

Antônio Lobo Guimarães, Menino-Serelepe (1)


Neste post, recordo meus tempos de aprendiz de "farmaceiro", as leituras de um "chernoviz", nas horas vazias de um domingo indolente, na Farmácia Santo Antônio, na companhia de meu pai, O Dé da Farmácia, para falar um pouco das propriedades curativas das águas virtuosas de minha terra.

Vamos lá.

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Antigos manuais de medicina

No Brasil do Século XIX, os conhecimentos da medicina ainda eram incipientes, os médicos escassos e o acesso à escola formal era restrito. Em razão disso, os manuais de medicina popular se tornaram instrumento essencial para disseminar práticas e saberes aprovados pelas instituições médicas oficiais no cotidiano daquela população. Entre esses manuais, destacam-se os elaborados por Chernoviz [5] e Langgaard [6], que reconheceram a estreita relação entre a medicina popular e a medicina científica. [1]

Os manuais desses dois médicos estrangeiros contribuíram para a instrução acadêmica de inúmeros praticantes leigos da medicina: senhores e senhoras de escravos, curandeiros, boticários... [2]

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Manuais mais conhecidos

Elaborados de modo a facilitar a leitura, os manuais de medicina popular continham a descrição das moléstias, bem como os conselhos e medicamentos que deveriam ser empregados em cada uma delas, de fácil formulação e úteis na economia doméstica. [2]

Vejamos alguns deles.

Erário Mineral, de Luís Gomes Ferreira

Editado pela primeira vez em Lisboa, em 1735, constitui um dos primeiros tratados de medicina brasileira escrito em língua portuguesa.

O livro reúne as experiências de práticas médicas realizadas pelo cirurgião-barbeiro Luís Gomes Ferreira na capitania de Minas Gerais. Além de uma descrição pormenorizada dos principais males ali frequentes, o autor também descreve os meios mais eficazes de cura que experimentou e faz um importante inventário dos medicamentos utilizados na época com suas respectivas funções.

Nessa leitura, descobrimos que entre os remédios empregados encontravam-se vários utilizados pelos índios e incorporados pelos paulistas à medicina colonial. Parte preciosa do relato é constituída pelas minuciosas informações sobre as duras condições de vida e de trabalho a que os escravos estavam submetidos, o que facilitava a propagação das doenças. Dois glossários completam e enriquecem ainda mais esta edição, procedendo a um levantamento dos médicos e cirurgiões citados pelo autor. (Scielo) (Disponível aqui)

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Formulário Médico e Pharmacêutico - Theodoro J. H. Langgaard

Theodoro Langgaard (1813-1883) nasceu na Dinamarca, estudou medicina em Kiel, na Alemanha, e em Copenhagen, e veio para o Brasil em 1842, quando foi morar, inicialmente, numa vila da Fábrica de Ferro de Ypanema, bem próxima à cidade de Sorocaba (SP), onde conheceu o dr. Cruz Jobim, então diretor da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Daí se transferiu para Campinas, cidade em que morou até 1870, quando veio para o Rio de Janeiro.

Em 5 de agosto de 1846, já há quatro anos no Brasil, apresentou, à Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, uma tese para revalidação de seu diploma, dedicada ao dr. Cruz Jobim, na qual defendia a geração espontânea (a). Foi autor do Dicionário de medicina doméstica e popular — que teve duas edições, nas cerca de 1.500 páginas divididas em três volumes — e do Formulário médico — que, tal como o de Chernoviz, era presença obrigatória nas farmácias antes da criação de uma farmacopéia brasileira, e que, mesmo sem ter experimentado a popularidade da obra de Chernoviz, teve três edições.

Eclético e erudito, Langgaard fez a tradução e o prefácio do Atlas de anatomia, de Bock (b), escreveu Sucintos conselhos a jovens mães para o tratamento racional de seus filhos, bem como um tratado intitulado Obstetrícia (c), e ainda uma biografia do naturalista dr. Lund (d). [2]     [Disponível GoogleBooks aqui]

a) Langgaard, Theodoro 1846 Dissertação crítica sobre a geração equívoca. Rio de Janeiro: Faculdade de Medicina. 13 p.

b) Bock, C. E. 1853 Atlas completo de anatomia do corpo humano. Rio de Janeiro: Eduardo e Henrique Laemmert.

c) Menezes, R. O. L. 1934 Minhas memórias dos outros. Rio de Janeiro: J. Olympio. 

d) Langgaard, Theodoro 1883 O naturalista dr. Lund (Peter Wilhelm), sua vida e seus trabalhos. Rio de Janeiro: Laemmert.   

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Formulário ou Guia Médica - Pedro Luiz Napoleão Chernoviz

O doutor Pedro Luiz Napoleão Chernoviz (1812-1881), nome abrasileirado de Piotr Czerniewicz,5 nasceu na Polônia (Lukov) e foi obrigado a sair de seu país, ainda bem jovem, estudante de medicina na Universidade de Varsóvia, por ter participado, em 1831, de um levante contra o domínio russo. Em 1836, participou no combate a uma epidemia de cólera, pelo que foi condecorado pelo governo francês com a medalha de mérito. Em 1837, doutorou-se em medicina pela Faculdade de Montpellier.

No início de 1840, Chernoviz aportou no Rio de Janeiro. No mesmo ano, em dezembro, teve seu diploma reconhecido pela Faculdade de Medicina e foi aceito na Academia Imperial de Medicina, como membro titular. [2]

Aqui escreveu o Dicionário de Medicina Popular e o Formulário ou Guia Médico do Brasil. Este último, lançado em 1841, foi o primeiro manual de terapêutica médica editado no Brasil, e foi dedicado ao Imperador Pedro II. O Formulário ou Guia Médico do Brasil constava de descrição dos medicamentos, propriedades, doses, moléstias para os quais deveriam ser empregados; plantas medicinais indígenas; águas minerais do Brasil; a arte de formular; receitas úteis nas artes e economia doméstica; e apoio a boticários e farmacêuticos.  [3]          [Disponível GoogleBooks aqui]

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Os Manuais de Medicina Popular e o uso terapêutico as águas minerais

No século XIX, dava-se o nome de águas minerais àquelas que vertiam da terra, contendo

...substâncias estranhas à sua natural composição, e em quantidade tal que possam exercer na economia uma ação especial, e dependente da natureza destas substâncias e de suas proporções. (Chernoviz)

No seu Guia Médico do Brasil, Chernoviz trata das seguintes espécies de água mineral: águas acídulo gazosas; águas alcalinas; águas férreas; águas salinas; águas sulforosas.

Langgaard, por sua vez, no Diccionário de Medicina Doméstica e Popular, definiu as águas minerais como aquelas

carregadas mais ou menos de substancias minerais, e que por causa da sua composição química e temperatura mais ou menos elevada, são empregadas como um importante meio terapêutico. [1]

Esse autor dá uma descrição geral sobre as águas, explicando o seu ciclo hidrológico e os seus diferentes estados físicos, fazendo a diferenciação entre a “água do mar”, “água doce”, “água parada”, “água branca”, “água de cal”, “água clorada” e “água destilada”. Essa foi uma das primeiras obras a fazer uma análise mais científica sobre as águas minerais. [1]

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A Água Virtuosa da Campanha nos Manuais de Medicina Popular

 

Guia Médico do Brasil - Chernoviz (6a. edição, 1864)

Na 6a. edição, de 1864, do Formulário ou Guia Médico do Brasil, páginas 399-401, o autor Pedro Luiz Napoleão Chernoviz explana sobre os efeitos medicinais das águas minerais e faz referência à Água virtuosa da Campanha, já considerada, então, a principal água gazosa do Brasil. Como se sabe, esse era o nome por que se conhecia à época a água mineral de Lambari.

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Dicionário de Langgaaard (2a. edição, 1872)

Na edição de 1872 do seu Diccionário de Medicina Doméstica e Popular, páginas 888-89, Langgaard faz também referência à Água virtuosa da Campanha, ou água santa.

Confira:


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Propaganda da Água Virtuosa da Campanha (1883)

Em 1883, no Jornal Correio Paulistano, há duas propagandas da Água Virtuosa de Lambary, — que "adquiriu o nome de virtuosa por suas virtudes", diz o texto. A segunda propaganda faz referência ao Dicionário de Langgaard.

Como se recorda, as Águas Virtuosas de Lambary foram as primeiras a ser descobertas no Sul de Minas, em 1780. (Veja aqui).

Confira:

Reprodução: Correio Paulistano, fev, 1883

Reprodução: Correio Paulistano, set, 1883

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Literatura sobre as propriedades curativas das águas virtuosas de Lambari

Em outro post, já falamos sobre as principais obras que tratam de aspectos médicos das águas de Lambari. (aqui)


         

          

  • MILEO, José Nicolau. A água mineral de Lambari - contribuição para o seu conhecimento. Cruzeiro, SP, Gráfica Editora Liberdade, 1968.
  • CHAVES, Benício. Água de Lambary. Lambary, MG : Pinto & Cia., 1932
  • LISBOA JÚNIOR, João. Aplicações terapêuticas das águas minerais de Águas Virtuosas do Lambary e épocas de estação. 1928
  • MOURÃO, MÁRIO. Tratamento hydro-mineral das moléstias do fígado. Edição Rodrigues & Cia., Rio de Janeiro, 1939. [Veja-se o  Capítulo III - Indicações das águas acidulo-gazozas de Caxambu e Lambary, São Lourenço e Cambuquira, no tratamento das moléstias do fígado.]

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Referências

[1] SCHRECK & MARQUES. SCHRECK , Rafaela Siqueira Costa ; MARQUES, Rita de Cássia. Águas Minerais: De Medicina Popular às Práticas Integrativas de Saúde do SUS [Artigo] - Disponível aqui

[2] GUIMARÃES, Maria Regina Cotrim. Chernoviz e os manuais de medicina popular no Império. [Artigo técnico] - Disponível aqui

[3] PORDEUS & PAIVA. PORDEUS, Isaela Almeida & PAIVA, Saul Martins. Odontopediatria. São Paulo, Asrtes Médicas, 2014 - Disponível aqui

[4] FERREYRA, Luis Gomes. Erário Mineral. Org. Júnia Ferreira Furtado. Belo Horizonte, Fundação João Pinheiro, Centro de Estudos Históricos e Culturais; Rio de Janeiro, Fundação Oswaldo Cruz, 2002 - Disponível aqui

[5] CHERNOVIZ, Pedro Luiz Napoleão. Formulário ou Guia Médica. Paris, Casa do Autor, 1864 - Disponível aqui

[6] LANGGAARD, Theodoro J. H. - Novo Formulário Médico e Farmacêutico. Rio de Janeiro, Eduardo & Henrique Laemmert, 1872 - Disponível aqui

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2735.jpg (*) Esta trecho faz parte do livro Menino-Serelepe - Um antigo menino levado contando vantagem, uma ficção baseada em fatos reais da vida do autor, numa cidadezinha do interior de Minas Gerais, nos anos 1960.

O livro é de autoria de Antônio Lobo Guimarães, pseudônimo com que Antônio Carlos Guimarães (Guima, de Aguinhas) assina a série MEMÓRIAS DE ÁGUINHAS. Veja acima o tópico Livros à Venda.

NOTAS

  • Chernoviz: Refere-se ao dr. Chernoviz, médico autor de um antigo livro de receitas de remédios. Por extensão: vademecum                                    [Voltar ao tópico]
  • Mãe Véia - Apelido pelo qual os netos designavam minha avó paterna: Margarida Augusta Guimarães, que herdou de sua mãe, D. Chiquinha, os dons de benzedeira.

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Publicado por Guimaguinhas em 21/04/2017 às 07h59
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