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Sob as asas da vó Cema
 
Ah, dona Iracema, que saudade!
 
Sumário

A viuvez

(...) quando vó Cema enviuvou teve de cuidar da prole sozinha — minha mãe, a caçula, tinha só 10 anos —, movida só por uma pensãozinha micha deixada pelo vô Miguel, que foi só isso, seis filhos e uma navalha Três Coroas que o pobre coitado do meu avô deixou, mais nada.

 
Vó ficou viúva jovem e não mais se casou. Pra sobreviver, ela foi à luta e, de sol a sol, junto com a filharada solteira — tio Messias e tio Rubens já eram casados — aprendeu a tecer artesanato de capim membeca e bolsas adornadas com cartões postais de Aguinhas e a fazer flores artificiais de avenca e massa de trigo tingidas com corantes para vender na Estação Férrea, na Paradinha Melo, no Parque das Águas, nas portas dos hotéis, mas nunca arrefeceu, nem parou de lidar um minuto até o casamento do tio Mário, o último filho a se unir. Quando isso aconteceu, foi morar com o tio Messias, o filho mais velho. Morar é modo de dizer, visto que o que ocorria era que vó “fazia ponto” no tio Messias, pois que a cada mês ela ia pra casa de um filho diferente. E era uma disputa, que todomundo queria ter aquele misto de brabeza, generosidade e carinho bem por perto. E, também, em razão de que ninguém nunca encostou mão em neto perto da vó Cema, nem mãe que queria me bater a toda hora.

  Vó Cema na Vila Nova, trajando a 
roupa típica: saia e casaco. Ao lado, os netos Mingo e Chica (Domingos e Francisca, filhos de Messias Lobo e Elisa).
Xodó da vovó
 

Eu fui um menino muito querido pelas tias Elisa, Ceci, Zezé, Sara e Léia, que sempre foram boas pra mim, mas da dona Iracema eu fui meio xodó da vovó, pois ela vivia me cuidando e comigo ninguém fazia judiação. — Olha as orelhas desse menino! Já dá pra plantar couve. E quentava água e com jeito enfiava lá uma toalha molhada pra me deixar limpinho. — Bota a cabeça aqui no meu colo, deixa ver se tem lêndea, ela dizia. Me aparecia uma impigem, ela punha o rosto coladinho ao meu e dizia este menino ‘stá com uma pontinha de febre, Neli, precisa ver o que é, que pela Vila Nova um andaço de catapora. Eu dava um tropicão e vinha chorando: — Ara, isso é um trenzinho à toa! Vó vai soprar, que logo a dor passa. Chovia, aparecia o arco-íris, ela me mostrava e contava sobre o arco-da-velha, o pote de ouro e os perigos de se passar por baixo: mulher vira homem e homem vira mulher. Ao anoitecer, ainda bem cedo porque se deitava com as galinhas, me punha na sua cama pra me fazer dormir.

 Vó Cema como gostava de ficar: rodeada de netos. Na foto, com Mingo, Chica, Cida e Graça, filhos de Messias Lobo e Elisa.

O colchão era enorme, de palha, mexido e remexido pro catre não machucar; os lençóis de sacos, quarados e alvejados; a fronha, bordada nos cantos, guardava bem guardado o cheiro do travesseiro de macela. Abria então a janela, apontava o São Jorge coruscando na lua e falava das lutas dele contra o dragão. Ou me mostrava o céu formigando de estrelas, dizendo não conte estrelas, que dá verruga. Ou me exibia um velho quadro com o Arcanjo Gabriel lancetando o dragão e me contava a história, “que está na Bíblia”, ela dizia. E pai falava: — Neli, sua mãe anda cocorando muito esse menino! E ‘tava mesmo, pois eu vivia enfiado debaixo das asas dela, que ali ninguém tinha coragem de chegar.

 
Vó Cema em Jesuânia, na casa de Rubens Lobo e Ceci. Na foto: eu (bebê ao centro), minha mãe, tia Ceci e filhos: Rubinho, Beta e Berenice.
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Pequeno retrato

Vó usava sempre um conjunto de saia e casaco, e nos bolsos desse nunca faltavam o maço de cigarros, o fósforo, o lenço, o rosário — e balas e moedas, já que quem tem quase cinquenta netos tem que ter um agradinho sempre no jeito. Os cabelos longos, trançados e presos por uma travessa. Nos tempos de frio, nos ombros sempre uma mantilha a lhe proteger e um solzinho de Deus nas pernas pra modo de ficar bem aquecida. Nos pés, o gato Luluca lhe mordiscando as meias. Das mãos, a agulha e o crochê só saíam quando ela dava uma paradinha pra pitar e tomar um cafezinho. No mais do dia, era tricotar, crochetar, fazer colcha de retalhos, bordar toalhas, cerzir meias, remendar roupas (Remenda teu pano, que durará um ano. Remenda outra vez, que durará um mês), que era isso de que ela gostava e sabia fazer no capricho. De tardezinha, se pegava com os seus santos, tomava do rosário e rezava horas inteiras.

 
Vó Cema nos tempos de Hotel Ideal, onde foi faxineira. Ela alegre, brincando com minha mãe e outros colegas de trabalho.
 
Caprichosa com tudo, o talento de arrumadeira da vó Cema era reconhecido no Hotel Ideal onde trabalhou. E, assim, não suportava gente desmazelada ou coisas mal feitas, e dizia na sua linguagem espirituosa: — Gente, ocês num me faiz as coisas malemá, que é muito feio! Arruma direito esse armário que uma barafunda só! Parece gaveta de sapateiro! E continuou assim até o fim da vida, e mesmo quando sua visão já não ajudava, que essa se foi danando aos poucos em razão de insidiosa catarata. Eu enxergo os pontos no escuro, ela explicava. Mas era o treino e o tato, a gente sabia. Pouco antes de morrer, falava pra mim que seu sonho era enxergar direito de novo. Fomos até Varginha, fizemos os exames, mas o doutor Mil-Homens recomendou que não se operasse, em razão da idade e do diabetes. Vó ficou triste, mas, como acreditava que mais vale a fé do que o pau da barca, repetiu pra mim a frase com que marcou sua conformada vivência: — ‘Tá ruim, mas tá bão, né fio?

 
Vó Cema, na Vila Nova, com netos. 
 
A extrema fé católica

Sua resignação em presença dos lances da vida pobre e difícil decorria da extrema fé católica. Fazia suas novenas, rezava seus terços, sempre lembrando as almas do purgatório e não perdia uma missa e não admitia que filhos, que noras, que genros e que nenhum dos netos deixasse de ir à missa aos domingos. Quando Deus quer, água da bilha é remédio, costumava dizer. E dessa sua fé colhia meio pra tudo, que qualquer problema ou enfermidade tinha solução com os santos. Chuva brava? Queimar palha benta e rezar pra Santa Bárbara e São Jerônimo! (Mas não se esqueça de cobrir os espelhos e guardar as tesouras...) Objetos perdidos? Rezar pra São Longuinho. Cisco no olho? Santa Luzia passou por aqui, seu cavalinho comendo capim... Engasgos? São Braz do mato desengasga mo gato. Ferida que não fecha? Oração pra São Lázaro. Pra nada faltar em casa? Imagem de São Benedito na cozinha. Pra cachorro não morder? São Roque socorre. Causas urgentes? Santo Expedito. Casos desesperados, negócios sem remédio? São Judas Tadeu. E Menino Jesus de Praga pra cuidar das criancinhas.
 
 
Vó Cema, tio Messias e tia Elisa recebendo em casa a imagem de N. S. Aparecida, de quem minha vó era devota.

Cinza na testa na quarta-feira de Carnaval e respeito durante toda a Coresma era tradição que ela exigia que fosse cumprida. Crendospadre! Bata na boca e num fala raio, menino, que não presta! Ela nos passava um pito assim quando a palavra escapava. Num mata bendito que ele trás bom agouro, dizia fazendo o pelo sinal quando a gente queria esmigalhar um louva-a-deus. E se alguém perguntava como vai dona Iracema? Ela sempre respondia: Bem, na Santa Paz do Cristo.
A morte de minha avó

Pecados? Uma rezadeira que nem a vó Cema só cometia dois, mas dos pequenos: o cigarro, que teve que largar quando os pulmões se arruinaram e a dosinha de cachaça com groselha que o Dé, aos domingos, fazia que ela tomasse. Quando veio a doença que a levou, vó tava residindo com a gente, na casa da cidade. E ela falava, nos seus modos: ― Deixei de vez minha biboca da Vila Nova causa que me cansei de ficar socada naquelas funduras e também de ser andejo. Agora vim de morada pra cá, meu filho, arranjei um cantinho e num saio mais daqui. E não saiu mesmo, pois acabou falecendo em nossa casa.
 
Por essa época, eu acabara de casar, morava com meus pais, a casa era pequena e vó, desensarada, ficava num quartinho, coladinho ao meu, somente com uma cortina a separá-los. Aí ela, acamada, dizia pra mim e pra Celeste: — ‘Stô velha, cega e surda, Não vejo nada, não escuto nada e também não vou falar nada. Fiquem à vontade!

 Vó Cema, Vô Miguel Lobo, Neli e Mário Lobo.

Iracema Gentil Lobo, filha de José Gentil (Giuseppe Gentili) e Chica Gorda (Francesca Bodegorni Gentili), foi casada com Miguel Lobo (que se assinava Miguel Arcanjo dos Santos). Teve seis filhos: Messias, casado com Elisa Lemos; Rubens, casado com Juraci Framil; Mário, casado com Léia Diego; Sara, casada com Tião "Vila Nova" Miranda; Maria José, casada com Pedro Avíncula; e minha mãe, Neli, casada com José Guimarães Filho (Dé).
Vocabulário de Aguinhas

Andaço:  Pequena epidemia
Andejo: Que não para em casa, que anda de uma parte a outra
Arco-da-velha: arco-íris
Bendito: Em Minas Gerais, o mesmo que louva-a-deus
Bilha: Moringa
Cocorar: Acocar; acocorar = fazer mimos
Coresma: Corruptela de quaresma
Crendospadre: Creio em Deus Padre
Crochetar: Fazer crochê
Desensarada: Que se restabelece de doença grave
Malemá: Pouco mais ou menos; sofrivelmente. Parcamente, escassamente; mal mal
Membeca: Capim pródigo na região de Aguinhas com que se trança artesanato; em alguns lugares é chamado de barba-de-bode

Quarado: Roupa quarada (ou courada): a que foi exposta ao sol para clarear
Tropicão: Ato ou efeito de tropicar. Tropeção
(*) Esta narrativa faz parte do livro Menino-Serelepe - Um antigo menino levado contando vantagem, uma ficção baseada em fatos reais da vida do autor, numa cidadezinha do interior de Minas Gerais, nos anos 1960.
 
O livro é de autoria de Antônio Lobo Guimarães, pseudônimo com que Antônio Carlos Guimarães (Guima, de Aguinhas) assina a série MEMÓRIAS DE ÁGUINHAS. Veja acima o tópico Livros à Venda.
Guimaguinhas
Enviado por Guimaguinhas em 10/09/2013
Alterado em 07/10/2013
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