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A vingança de Ben-Hur
 
Para o Dé, que foi embora cedo, mas deixou seu modelo.
 
Na época aqui descrita, numa cidade como Aguinhas, cinema era o grande programa dos finais de semana, e mesmo do meio de semana para quem gostava e podia (havia “fregueses” que pagavam por mês...). Como a toda criança, o cinema a mim também deslumbrava. Havia as matinês no Cine Imperial, a que a vó Margarida costumava levar os netos (até hoje me lembro de um desenho animado em que os personagens todos eram patos). Havia o cineminha falado — uma brincadeira inventada pelo Marquinhos do seu Camargo — um menino mais velho, engraçado e brincalhão que contava pra criançada da rua diversas histórias criadas e teatralizadas por ele mesmo, nas quais remedava os tipos, dublava as vozes, fazia meneios, palhaçadas, correrias, dando-nos sustos e provocando gargalhadas. Havia os filminhos: restos de películas de filmes diversos, montados em sequência, que projetávamos em casa num “projetor” de caixa de papelão e lanterna, com sessões de hora marcada, cartazes à porta, venda de ingressos, tudo de mentirinha. As séries semanais que antecediam os filmes das sessões das duas nos domingos, no Cine ABI, eram uma outra grande atração: aguardávamos uma semana inteira — inventando hipóteses, arriscando previsões, torcendo pelo mocinho — pra saber como o herói ia safar a si e à heroína das enrascadas.
 
Mas cinema também me traz recordação triste e o caso se deu com o tão esperado filme Ben-Hur, com Charlton Heston, Stephen Boyd, Jack Hawkins, Haya Haaraeet, atores, então, de muito cartaz. Esse filme fez tal sucesso em Aguinhas que, antes de iniciar a venda de ingressos, já a fila do Cine ABI dobrava a esquina do Hotel Bibiano. Mas pai, mãe e eu tínhamos chegado cedo e logo compramos ingresso e nos sentamos num lugar bem conhecido de todos. Nos finais de semana as sessões sempre lotavam, mas nunca jamais fora daquela maneira. Pouco tempo depois, o cinema ficou completamente tomado, em cima e em baixo, com muita gente sentada pelo chão ou, ao fundo, em pé. Quando veio o som do fox-polca que anunciava a hora da sessão começar — Barril de Chopp (Berr Barrel Polka) — deu-se aquele alvoroço.
 
O pai, por conta do plantão da farmácia, muitas vezes era chamado para atender algum caso importante, visto que, no Posto de Higiene, remédios de urgência por esse tempo em Aguinhas não havia. Por causa disso, sempre se sentava no mesmo lugar e na cadeira da ponta, pra facilitar eventual saída. Pois foi só o filme começar e outra coisa não se deu: o lanterninha bateu no ombro dele dizendo Dé, tem alguém te chamando pra aviar uma receita urgente, que uma criança está passando muito mal. Pai saltou da poltrona e prontamente foi atender. Mãe, como sempre fazia num caso desses, levantou a tampa do assento e sobre ela botou a blusa, modo de reservar o lugar — que todos se acostumaram com isso, tanto o Dé e o seu plantão eram conhecidos em Aguinhas. Um sujeito malprocedido, porém, chegou pra ocupar o lugar. Mãe explicou: — ‘Tá reservada. Meu marido teve de ir à farmácia atender um caso urgente, mas volta já. O homem resmungou e saiu esbravejando. Dali a pouco, voltou acompanhado de um soldado amulatado, alto, forte, um tanto metido a sebo, que, novo em Aguinhas, em pouco tempo ficara famoso pela rudeza com que desempenhava suas funções e a desenvoltura com que abusava do poder da farda. E foi esse policial que, estupidamente, retirou a blusa da mãe e com modos violentos forçou pra baixo o assento que ela guardava pro pai, dizendo aos gritos que não se podia reservar lugar. Mãe ficou muito nervosa e procurava explicar a situação, argumentando que se tratava de um caso tal qual se o pai tivesse ido ao banheiro, pois que pagara o ingresso e já se assentara naquele lugar. O estúpido, porém, não quis saber das explicações e disse aqui não há cadeira numerada, e nela instalou o bestalhão que reclamara o lugar, e o tal foi se esparramando pelo assento, cheio de razão, a nos olhar cinicamente com ares de suposto vencedor sabe-se lá de quê. E uma pequena cena se armara: — Psiu! Silêncio! — muitas vozes gritaram. Mãe me juntou pelo braço e disse: — Vamos embora, que é muito desrespeito e grosseria pra mim. E eu, imaturo em tais assuntos, não alcancei a gravidade da situação e só queria saber de ficar e assistir ao tão aguardado filme, supercampeão do Oscar. Aí foi mãe quem me deu um puxavão, me arrastou pela mão e eu saí chorando, desesperado que estava para ver a famosa cena das bigas, da qual todo mundo falava. Fomos à farmácia, mas pai não pôde tornar ao cinema, já que a criança doente ainda reclamava cuidados.
 
No dia seguinte, na escola, todos comentavam as peripécias do filme, e eu fora das rodinhas, sem graça, massacrado pelo acontecido. À tardezinha o gerente do Cine ABI passou pela farmácia, se desculpou com o meu pai dizendo que a iniciativa fora do policial, visto que a direção do cinema sempre soube administrar de modo especial as saídas de meu pai e a reserva de seu lugar. E que podíamos assistir à próxima sessão de graça. Pai entendeu, falou com mãe, mas ela não quis saber de explicações e tomou birra de polícia e nunca mais quis saber do tal soldado, enquanto ele permaneceu em Aguinhas.
 
Esse mesmo homem da lei tempos depois foi que, tarde da noite, num domingo chuvoso, levado pela mulher e um charreteiro, bateu à porta de casa, com uma dor-de-fincada, arcado de cólicas e embodocado sobre o assento da charrete. E a mulher atarantada dizendo seu Dé, nos atenda pelo amor de Deus! que ele já não suporta mais as dores e desmaiou três vezes! Já procuramos e não encontramos nenhum médico! Cidade pequena, parcos recursos, e o pai abriu a farmácia, deitou o homem na maca da sala de injeções, fez perguntas, examinou, tomou pulso, tirou febre, aplicou Baralgin e aguardou o efeito; dor não cedeu. Pai aplicou composição mais forte (Buscopan com glicose), pendurou um soro e esperou longa e pacientemente até que a crise do homem passasse. Enfim, a dor se foi e o homem — desta feita, deslambido, sem rompança alguma — agradeceu todo descochado. A mulher dele, que parecia envergonhada, chorava e agradecia sem parar dizendo Deus lhe pague, seu Dé! Deus lhe pague, seu Dé! e perguntou se o pai podia pôr a despesa na conta, que o Governo pagava mal à polícia, que era comecinho de mês, mas o salário já se fora todo. Pai disse que sim e conduziu-os até a charrete que os trouxera e voltou pra fechar a farmácia.
 
Eu acompanhara o pai desde o início e não abrira a boca; fiquei o tempo todo de lado, de cara feia, inconformado, com a alma em desalinho e a mente a repassar o lance do cinema. Pai sabia de quem se tratava, mas acolheu-o com naturalidade sem nada transparecer, mas eu ficara me dizendo: Bem-feito! Bem-feito! Quando o homem foi embora, o pai que já lera o meu coração foi falando não guarde rancores, não repise mágoas, que não faz bem, você já aprendeu sobre isso. Eu sabia de cor a lição, que essa história de perdoar era freqüentemente reavivada em nossa casa na passagem evangélica de Ananias e Saulo. Não ia guardar rancor, tudo bem, mas esperava que o pai desse o troco, que desforrasse a gente de algum modo, que cuidasse do homem, mas a ele recordasse a desfeita, pelo menos — que aquela era uma boa oportunidade de se fazer isso. Mas isso foi o que o pai não fez. Por que ocê não disse a ele, pai? eu falei. Tem coisas que não paga a pena ficar remoendo, o melhor remédio é esquecer, ele disse. Eu não concordei muito com o pai, pois sabia que ele não tinha medo de arreganhos de autoridades ou de gente de quepe e muito menos de enfrentar injustiças e que costumava ser muito bravo quando era preciso. Mas esse soldado foi grosso e injusto com a gente, eu reclamei. Não se preocupe — o pai respondeu — que o homem lembra bem do ocorrido e também sabe quem eu sou. E continuou me explicando pela ótica da sua filosofia que o fato de o homem ter vindo pedir-lhe ajuda com cruciante crise de rim (a pior dor que existe, tipo pulsante, pai explicou) possivelmente fora lição que a própria vida dera a todos nós. Que ele, pai, entendera a lição e que eu tentasse entender também, pois que isso era o bastante e que nesses casos não devemos mover uma unha a mais do que a trama do destino riscar. E tem outra coisa, meu filho, ele disse, nessa minha tarefa não posso misturar as coisas, que trabalhar em farmácia é compromisso meu muito antigo e a gente nunca sabe quanto tempo vai ficar por aqui. Esquece o caso, serena o coração e vamos pra casa, que ‘stá ficando tarde e amanhã é segunda-feira e eu tenho de pegar no batente e estar de volta a esta baúca antes das sete horas da matina e eu não sei quantas vezes mais vão me chamar essa noite. Foi falando emendado, enquanto guardava o caderno de fiado, de orelhas amassadas pelo uso, no qual anotara a conta do sujeito.
 
Esqueci (esqueci?) o acontecido como o pai pediu. Estabeleci, porém, longa distância e forçada indiferença e sempre desviava o caminho e desfitava aquele homem, que foi essa a forma que encontrei pra lidar com o fato, conquanto a lição que o pai me dera, que eu ainda não estava preparado para assimilar por inteiro.

Vocabulário de Aguinhas

Batente - Trabalho efetivo, com o qual se ganha a vida
Baúca - Pequena venda ou estabelecimento comercial.
Descochado - Desacochado = Perder a compostura altiva ou presunçosa. Ficar desorientado, envergonhado, desmoralizado..
Deslambido - Sem graça, sem jeito; desenxabido, insulso, delambido.
Dor-de-fincada - Dor aguda e intensa
Filme de cartaz - De muito renome, famoso
Metido a sebo - Que se arroga importância que não tem, convencido..

(*) Esta narrativa faz parte do livro Menino-Serelepe - Um antigo menino levado contando vantagem, uma ficção baseada em fatos reais da vida do autor, numa cidadezinha do interior de Minas Gerais, nos anos 1960.
 
O livro é de autoria de Antônio Lobo Guimarães, pseudônimo com que Antônio Carlos Guimarães (Guima, de Aguinhas) assina a série MEMÓRIAS DE ÁGUINHAS. Veja acima o tópico Livros à Venda.

Ilustração de abertura: reprodução do cartaz do filme, extraído da Internet
Veja o álbum de figurinhas do filme - aqui

 
Guimaguinhas
Enviado por Guimaguinhas em 09/03/2013
Alterado em 22/10/2014
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