Guimaguinhas
Memórias familiares e da minha cidade natal
CapaCapa
Meu DiárioMeu Diário
TextosTextos
ÁudiosÁudios
E-booksE-books
FotosFotos
PerfilPerfil
Livros à VendaLivros à Venda
Livro de VisitasLivro de Visitas
ContatoContato
LinksLinks
Textos


O trem de Aguinhas

Enfrascado numa calça-curta nova, sobraçando uma malinha de papelão, na velha Estação Férrea, inaugurada em 1896, eu olhava, olhava, escutava, punha sentido e nada do trem chegar. — Será se o trem num vem hoje, mãe? — Vem, menino, calma que já ele chega. “Será se logo na minha vêis trem num vem?” fiquei matutando, cheio de ansiedade. Mas o trem veio, e nós embarcamos, e tudo pra mim era novidade. Os assentos de madeira, os funcionários uniformizados, uma gentarada que entrava e outra que saía. E eu mudando de banco a toda hora, me pendurando na janela. — Guima, cuidado! tira a mão daí, vem sentar, trem vai sair! gritou a mãe, que eu num santiámen já ‘tava lá curioso, agachado e inspecionando os engates do trem.

 
Mas trem demorou a sair: primeiro bebeu água, em seguida, comeu coque, descansou um tanto... E, dali mais um pouco, o chefe da estação trilou o apito e a máquina começou a esguichar água quente e soltar fumaça, trilho rangeu, trem restrugiu — e lentamente começou a se arrastar. Um minuto depois, rodas rilhando, barulhão de ferro no trilho, trem foi enfreando, reduzindo velocidade, parou. — Trem estragou, mãe? — Não, menino, é que vai pegar gente na Paradinha Melo. Trem seguiu, contornou o lago de Aguinhas e eu encantado: “Nunca vi o lago desse jeito, como é lindo”... “Mãe, olha a Ilha dos Amores.” — Que pedreira é essa, mãe, perguntei mais à frente. Não é pedreira, é o Corte de Pedra. “Que beleza, nunca tinha visto uma pedreira assim”. Dali a pouco, outra parada: Jesuânia. Parada de novo: Olímpio Noronha. Mais uma vez: Km 15 – Criminosos. — Que é Criminosos, mãe? — É o nome da parada, lugar onde mataram muitas gentes. — Que gentes? Quem matô? — Não sei direito, depois ocê pergunta pro pai. Mais parada: Km 10 – Lagoa. Outra vez: Freitas. — Senhores Passageiros: Vamos descer, por favor, baldeação. — Que é baldeação mãe? – Aqui a gente vai trocar de trem. — Pra que isso? Eu gostando bem deste aqui mesmo. — Tem que trocar, menino, este vai para outro lugar. Um agente ferroviário a picotar os bilhetes e o trem seguindo e parando: Raul Chaves, Soledade, São Sebastião do Rio Verde, São Lourenço, Itanhandu. Então, tio falou que ficássemos atentos, que a viagem ia se tornar cada vez mais bonita, e eu morrendo de curiosidade, porque o tio Tião ia explicando pras crianças sobre a serra, sobre o túnel, sobre a altura, sobre os pontilhões. — Mas trem sobe morro, tio? — Sobe, sobe. Bufando, mas sobe. Mas precisa de ajuda. Aí vem outra máquina, mais nova, máquina a óleo, pra ajudar na subida da composição. E eu mais os primos só imaginando como tudo aquilo seria. E aí o trem — meio ofegante — rumou pra Mantiqueira, serpenteando, arquejando, em direitura a Pé do Morro, Manacá, Coronel Fulgêncio (homenagem a um militar morto na Revolução de 32, tio falou. — Que é revolução, tio? Tio respondeu. — É 32 porque dava tiro que nem a 32 do pai? Tio riu de mim, mas explicou resignado: — Não, meu filho, porque aconteceu no ano de 1932...) E mais: Rufino de Almeida, Passo Quatro. Na entrada do túnel, fecharam-se as janelas e portas modo de impedir a entrada de fagulhas, visto que a locomotiva caga-brasas naquele passo soltava mais fagulhas do que fumaça. Na divisa, tio adiantou: — Aqui, a gente muda de Estado. — Que é Estado, tio? perguntei. Mais um pouco e chegamos a Cruzeiro — Senhores Passageiros: Vamos descer, por favor, baldeação. — De novo, mãe, agora que já ia gostando desse trem, que ele sobe até serra?! Que viagem inesquecível!

Agora siga visualmente o que foi narrado no conto acima:

A Estação de Aguinhas, o pátio da estação, a Parada Melo, a linha do trem contornando o lago...
 
 
Estação de trem em Aguinhas
 
 
Pátio da estação
 
 
Parada Melo - ficava a 1 km da estação principal



O trem da R.M.V. passando pela Parada Melo - anos 1960
 
 
Antigo leito da ferrovia contornando o lago de Lambari
 

A estação de Olímpio Noronha (*)
 

composição avançando.. (**)
 
Trem restaurante com destino a Águas Virtuosas, numa parada em Passa Quatro (1906)

Veja mais fotos de trechos dessa viagem (Coronel Fulgêncio, Cruzeiro, Passa Quatro), neste link:

http://www.estacoesferroviarias.com.br/rmv_cruz_jureia/rmv_cruzeiro_jurea.htm
 
Veja também estes links
 

(*) A estação de Olímpio Noronha - Fonte: olimpionoronha.blogspot.com.br 
(**) Composição da RFFSA/Oeste - Fonte: minasstrains.blogspot.com.br

(***) Esta narrativa faz parte do livro Menino-Serelepe - Um antigo menino levado contando vantagem, uma ficção baseada em fatos reais da vida do autor, numa cidadezinha do interior de Minas Gerais, nos anos 1960.
 
O livro é de autoria de Antônio Lobo Guimarães, pseudônimo com que Antônio Carlos Guimarães (Guima, de Aguinhas) assina a série MEMÓRIAS DE ÁGUINHAS. Veja acima o tópico Livros à Venda.
 
Guimaguinhas
Enviado por Guimaguinhas em 10/05/2013
Alterado em 26/01/2015
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original. Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.


Comentários

Os Curadores do Senhor R$20,00
Abigail [Mediunidade e redenção] R$20,00
Menino-Serelepe R$20,00
Site do Escritor criado por Recanto das Letras

Formas de interação com o site GUIMAGUINHAS

- Contato com o site - clique o link e envie sua mensagemhttp://www.guimaguinhas.prosaeverso.net/contato.php

- Contato com o autor - envie mensagem para este e-mail: historiasdeaguinhas@gmail.com

- Postar comentários sobre textos do site - utilize esta ferramenta que está ao pé do textoComentar/Ver comentários 

- Enviar textos: utilize acima: