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Traquinagens na linha do trem

No livro Menino-Serelepe há uma passagem em que o menino arteiro fica imaginando quantas tropelias poderia fazer no trajeto entre a estação do trem de Aguinhas e a casa de sua avó Iracema Lobo, na Vila Nova.

Para uma criança, num pequeno trajeto, cabe toda a fantasia do mundo...

A irritação do menino, porém, duraria pouco, pois logo ele ia dar um jeito de inventar coisas que fazer pelo caminho. — Vamos passar pelo Campinho, mãe? — Não, pela Estação, que é mais perto. Mas não quero você andando na linha do trem e nem chegando perto no virador, que um menino teve que cortar a perna porque foi querer andar naquela geringonça. E fique longe dos cachorros, que por lá tem muito cachorro louco. (“Cachorro louco em janeiro, mãe? Mas isso não é só em agosto?”) — Ah, mãe, pelo bairro do Campinho é melhor, tem passeio, tem sombra, ele insistiu. — Não amola, é pela Estação que nós vamos. (“Ah, deu certo, como a história do sapo que escondeu na viola pra ir à festa no céu, que o Pai Véio contou! Me joga na pedra, me joga na pedra! E o urubu jogou o sapo na água. Nós vamos pelo caminho da Estação. Oba!”)

 
Para um menino que nem o Guima, traquinas dos pés à cabeça, de cabelo espetado que nem de lobo, cheio de redemoinhos, cujos tranchans estavam sempre de solas gastas e furos no dedão de tanto ele chutar o que via pela frente o caminho da Estação era cheio de atrações, um convite às descobertas, uma chance para aventuras. Ali se andava pelas trilhas, margeando a estrada de ferro e durante a caminhada havia inúmeras ocasiões de brincar e se divertir.

        

Vista da antiga estação de Aguinhas. No pé esquerdo da foto, o virador da locomotiva (*)
 
“Assim que a Estação apontar, vou dar uma corrida na frente da mãe e saltar no virador do trem. Depois passo de fininho pela sala do telégrafo pra escutar o morse: tectetec- tec-tectetec. (Ih, e se o chefe da Estação aparecer e me botar pra correr? Ara, ele não parece tão bravo e acho até que um dia ele vai gostar muito de mim. Será se não?) Na matinha, que dá pro Alto da Boa Vista, vou encher os bolsos de mamona, que vai ter de ter guerra na Rua de Baixo, perto da casa do tio Messias. (Hoje eu desforro e acerto o Moré e a turma dele!) Ah, vou colher maravilhas, fazer um colar e levar pra Vilminha. (Será se ela vai gostar e me olhar daquele jeito de novo?) Vou catar pedras redondas pra dar umas estilingadas e praticar a pontaria nos fios dos postes do telégrafo. (Pssssiu! Moita! Que a mãe não viu que eu levando a arma escondida...) Na retona da Estação, eu vou saltar pelos dormentes e depois pôr o ouvido nos trilhos pra ver se o trole vem vindo. (Ah, isso só se a mãe não tiver olhando, que ela morre de medo do trolinho me pegar. Não tem perigo, já disse, eu sou esperto, eu escuto e salto fora antes dele chegar. Mas num dianta nada eu falar tudo isso, que ela não deixa e pronto!) Na padaria do seu Horácio, vou pedir pra mãe comprar cavalinho. (Melhor: dois cavalinhos que eu morto de fome.) Aí chego na ruinha que sobe do Campinho pro Pasto do Fubá e se o Bombinha tiver lá? (A mãe já disse que ele não pega menino que não bole com ele. Eu não bulo, mas e se ele correr atrás de mim? Melhor ficar por perto da mãe.) Na curva do Tião Vila Nova, vou encher de pedras os trilhos, que naquele ponto quando o maquinista avista as pedras já não dá mais tempo de frear. E se os meninos da Rua de Cima já fizeram isso, eu tiro as pedras deles e ponho as minhas. (Vai ver que eu tombo a locomotiva e uns três vagões!) No pontilhão, em frente à Dita do Oswaldo, eu vou descer no valo, passar por debaixo dos trilhos e sair correndo pelo outro lado, escorregar barranco abaixo, gritar os meninos do Tio Rubens pra ir comigo beber água no chafariz. Bebo na mão mesmo, nem precisa pedir caneca emprestada. (Xii, a mãe vai gritar: lava a mão menino que suja de terra, ocê num para de apanhar pedra no chão.)

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(*) Imagem: http://www.estacoesferroviarias.com.br/rmv_cruz_jureia/lambari.htm
 
(**) Esta narrativa faz parte do livro Menino-Serelepe - Um antigo menino levado contando vantagem, uma ficção baseada em fatos reais da vida do autor, numa cidadezinha do interior de Minas Gerais, nos anos 1960.
 
O livro é de autoria de Antônio Lobo Guimarães, pseudônimo com que Antônio Carlos Guimarães (Guima, de Aguinhas) assina a série MEMÓRIAS DE ÁGUINHAS. Veja acima o tópico Livros à Venda.

 
Guimaguinhas
Enviado por Guimaguinhas em 02/07/2013
Alterado em 11/09/2013
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