Guimaguinhas
Memórias familiares e da minha cidade natal
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Jogo de bola
 
Para Toninho, Xepinha e Lizeu, companheiros de jogo de bola.
 

Dia de sábado, três horas da tarde, sol de rachar mamona... As aulas de religião da Igreja Protestante acabam de terminar e o jogo de bola já pode ter início. Uma semana inteira de chuva, trabalheira dos diabos, botamos pra jambrar e ainda assim gastamos toda a manhã pra deixar “o campo” — uma quadra de terra, com as laterais demarcadas por tijolos presos ao chão — prontinho para uso. Riscos de areia delimitam os lados do campo e as áreas. Traves novas, cortadas do bambuzal e areia extraída da pedreirinha, materiais retirados da pequena mata onde se situa a fábrica de lajes e a torrefação do Tião Fernandes: uma grande área de terreno que quase inteiramente engole a modesta data da igreja, envolvendo-a pelos fundos e por um dos lados.
 
Há muita gente pra jogar. Os Costa: Xepinha, Lizeu, Toninho. Os irmãos “E” — Edísio, Edgar, Edílson. E mais Paulo, Mário e Alberto, filhos do Pastor Jézer Canelhas. E, ainda, uns meninos novos, aparecidos naquela tarde. Todos são protestantes, membros da igreja, menos o Guima, o mais fominha de todos, e o que liderou a arrumação do campo. Esse recebe uma criação ecumênica. É católico praticante da parte da família da mãe; espírita aprendiz pelo lado do pai e avós paternos; umbandista curioso da parte de algumas tias. E frequentador das atividades da igreja protestante, pelo lado dos vizinhos, companheiros de brincadeiras e do jogo de bola. Desde que seus pais mudaram pra cidade, essa comunidade amiga tornara-se parte importante do seu mundo.
 
— Par! Ímpar! Ganhei, eu escolho... Puxa vida, quanta gente! vai dar mais de três times. Time de fora fica empinhocado no barranquinho, esperando a vez: dois gols ou trinta minutos, marcados no relógio da igreja católica que se avistava do ponto mais alto da arquibancada, cujos assentos eram recortados no barranco. Lizeu é ainda pequeno, fica de fora, esperando beira, se der, para a última partida. Reclama, chora, embirra, aguarda, porém, resignado, velando sua vez chegar.
 
Vamo logo! Seis horas termina o sol e, aí, só no próximo sábado! Anda, gente! Estrondada-é-da-defesa-banheira-num-tem-dois-num-é-falta-três-escanteio-vira-pênalti-saída-bangu-penalti-em-gol-é-gol-quem-isola-busca... Anda! Vamo, pode a saída! Jogo no campinho só no sábado. Dia de semana tem aula ou trabalho; domingo é o dia do Senhor, dia de culto e não se pode jogar futebol.
 
Partida quente, disputada, ninguém quer sair e ter de ficar esperando no barranquinho. Toninho é dos mais velhos, corre muito e tem chute potente. Os irmãos “E” são fortes e jogam duro. Os Canelhas só jogam juntos, tocam bem a bola e são convencidos disso. Não gostam de perder, marcam todas as faltas para o seu time. Guima e Xepinha são amigos, jogam no mesmo time, são dos mais novos, mas jogam bem.
 
O Xepinha ninguém consegue marcar, dribla todomundo. Pra parar, só na pancada. — Falta no Xepinha! Quem fez? — Foi Edísio... — Êta cavalão, não vê que ele é pequeno! Faz comigo, se for homem, arrosta o Toninho, o mais velho dos irmãos Costa. Deixa disso! Segura um, segura outro. Tudo em paz, mas Toninho jura desforrar na próxima jogada. A certa distância, seu Antônio Costa e o Eli, seu irmão, líderes da comunidade protestante, observam a confusão, mas não intervêm. São nervos, rusgas, coisas do jogo de bola, deixa rolar. Mas palavrão não pode! Olha o respeito! Aqui é área da igreja, quem falar palavrão fora e aqui não joga mais!
 
O time do Toninho, Xepinha e Guima no peito e na raça ganhando por um a zero do time formado pelos irmãos “E” e pelos Canelhas. Falta um minuto, mas o jogo segue apertado, vai ser difícil segurar o resultado, eles vão empatar e levar o jogo pros pênaltis. Edgar domina na defesa, sai jogando, passa pro Edílson, deste ao Alberto Canelhas. Este sabe jogar, corre de cabeça erguida, conduz bem a bola, entra na área, vai empatar o jogo... Carrinho salvador do Guima! Bola pela linha de fundo. — É nossa! grita antes de todomundo um dos Canelhas, que esses gostam de serrar de riba e querem tudo a seu favor. Escanteio. Bola perigosa. Jogo aéreo. Nosso time só tem baixinho. Vem a bola. Todomundo sobe. Edísio cabeceia, bola na trave, que volta para o meio da área, Guima faz a cobertura, toca de lado pro Toninho. Esse prende a bola, penteia, faz firula, irrita o adversário, dá o corpo, protege a bola, recua pro Guima, que toca pro Xepinha. E esse, quem segura? Ninguém. Dribla um, dribla dois, tira do goleiro, empurra pro gol. Ganhamos! Sai o perdedor e entra o time de fora.
 
— Guiiiimaaaa! ... Guiiiimaaaa! — É a dona Neli, grita Lizeu. Que é, mãe! jogando bola no campinho! Vem, menino, vamo na Vila Nova ver a vó. Ah, mãe, agora não!  tamo ganhano! Vai ter outra partida! Deixa pra amanhã, que amanhã não tem jogo. Ara, menino, deixa disso, preciso ver sua avó hoje! Mas fomos lá ontem, mãe! Eu preciso ir lá hoje de novo. Vem logo, se não vai ficar de castigo no sábado que vem! Anda, menino, atrasada! Mas, mãe, deixa eu ficar jogando, não tem perigo! Não e não! Evem logo, se não eu vou aí te buscar pela orelha!
 
E o Guima sai cabisbaixo, triste, desfalcando o time para cumprir sua sorte de filho único e acompanhar a mãe nervosa e superprotetora, que ia percorrer longa caminhada pra ir lá na caixa-prego da Vila Nova visitar a vó Cema pela sexta vez na semana...

Gírias da "pelada"

Pelada, na gíria do futebol, é uma partida de brincadeira, como as que os garotos jogam em campo improvisado. Pois bem, entre nós, as gírias do futebol são tantas que há até vocabulários especializados sobre elas (aqui) e (aqui)

As gírias da pelada que mencionamos no texto acima, expressas na linguagem oral dos meninos da minha época, sintetizavam as "regras do jogo", que deviam ser acatadas por todos, e significam o seguinte:

Estrondada-é-da-defesa: "Estrondar" é dividir a bola com força, e se isso ocorrer no campo da equipe que está sendo atacada, a bola que sair pela lateral ou pela linha de fundo pertence à defesa do time que sofreu o ataque.
Banheira-num-tem: "Banheira" significa "impedimento", e em pelada não há "impedimento", que, regra geral, ocorre quando o jogador estiver mais perto da linha de fundo do que a bola e houver apenas um adversário entre ele e a linha de fundo.
Dois-num-é-falta: Se dois jogadores do mesmo time disputarem a bola contra apenas um adversário, ocorre um lance faltoso, mesmo que não tenha havido a "falta" [chutar, derrubar, segurar, etc., o adversário]
Três-escanteio-vira-pênalti: Na ocorrência de três escanteios seguidos, no lugar dessa última infração [escanteio] cobra-se um penalti.
Saída-bangu: Fazer sair a bola, após um gol, diretamente das mãos do goleiro, sem passar pelo meio de campo, para ganhar tempo, pois, na pelada, o tempo é de ouro!
Penalti-em-gol-é-gol: Se num lance dentro da área o jogador sofrer uma falta [penalti], mas a jogada resultar em gol, vale o gol, e não se cobra o penalti.
Quem-isola-busca: "Regra de ouro" da pelada! Penalidade para quem "isola", isto é, chuta a bola para longe do campo de jogo. O jogador que fizer isso, se obriga a ir buscar a bola.

 
Vocabulário de Aguinhas

Caixa-pregos: Lugar muito distante
Data: Pequena porção de terreno
Serrar de riba: Levar vantagem, ficar em melhor posição. (Riba = cima)
(*) Esta narrativa faz parte do livro Menino-Serelepe - Um antigo menino levado contando vantagem, uma ficção baseada em fatos reais da vida do autor, numa cidadezinha do interior de Minas Gerais, nos anos 1960.
  O livro é de autoria de Antônio Lobo Guimarães, pseudônimo com que Antônio Carlos Guimarães (Guima, de Aguinhas) assina a série MEMÓRIAS DE ÁGUINHAS. Veja acima o tópico Livros à Venda.

 
Guimaguinhas
Enviado por Guimaguinhas em 10/03/2013
Alterado em 14/07/2014
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