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MEMÓRIAS DO JOÃO BRÁULIO - No Grupo João Bráulio

Para dona Marcela, que me ensinou a Língua Pátria na Cartilha da Lili.
Para dona Carlota, pelas aulas de aritmética.

Antes de completar sete anos, tive de aprender o be-a-bá e copiar o meu nome pra poder entrar na escola. Pai trazia doce de leite do Gonelli, mas só dava se visse a lição pronta. Assim, quando me matricularam, já sabia essas primeiras letras.
 
Grupo João Bráulio, primeiro dia de aula, foi mãe que me levou pela mão. Bicho do mato, entocado na Vila Nova, pouco ia à cidade. Eu era o único menino de mãos dadas com a mãe. Todos dentro da classe e eu de fora, com medo de entrar. — Entra, menino, mãe apertava meu braço e me empurrava. Mas eu não era de ceder com qualquer dois arrancos. — Num , mãe. Já disse mil vezes, num vô! Mãe empurra, eu seguro, mãe torna a empurrar, eu firmo bem o pé. — Que é isso, garoto bonito, não quer entrar? Aprender a ler, contar, escrever? — me disse por trás uma voz meiga de menina-moça. Voltei e vi, pela primeira vez, dona Marcela. “Uma menina, pensei, professora? Será se é isso memo?” — Como é o nome dele, ela perguntou pra mãe. — Guimarães... Toninho... Antônio..., mãe falou tudo junto. — Ah, muito bem, como você gosta de ser chamado, perguntou pra mim. — Guimarães, respondi, que era um nome mais cheio, mais pomposo, causa que Toninho era o modo que todas as crianças e primos me chamavam e não parecia nome a ser dito pra professora. Tomou-me pelas mãos e eu fui o último aluno a entrar em sala de aula. Ela me conduziu até perto de sua mesa e gritou pra turma: — Crianças, atenção! Atenção, crianças! A bagunça e o barulho foram cedendo. E ela disse: — Quero apresentar a vocês um coleguinha. Seu nome é Guimarães. Ele acaba de chegar, tratem ele bem. E eu que ‘tava morrendo de medo de entrar por pouco não desabei tendo de enfrentar a turma assim, de supetão, pela primeira vez e todos de uma vez só. E torcendo as mãos, tossindo no sem graça, fui conferindo a classe sentada de dois em dois em velhas carteiras: era Rubinelson, era Heloísa Barros, era Dito, era Aluísio, era Carlinhos, era Antônio Maria, era Silvinho, era Rubens e sua irmã, a Emerentina, era o Felpudo (sempre atacado dos ventos), era um turmão danado...
 

Duas semanas depois, dona Marcela inspecionava a fila de alunos, escabichando cabelos, dentes, unhas, orelhas, bolsa, cadernos, livros, roupas, sapatos. Parou diante de mim, examinou minha mão direita e disse Guimarães, que calos mais sujos são esses? Bolinha de gude, respondi com firmeza, orgulhoso dos nós terrentos no dorso da mão. Depois olhou para os meus pés e falou: — Menino, estes são os sapatos novos com que você veio no primeiro dia de aula?! — Sim, respondi, acanhado do trancham sujo, estrompado e em petição de miséria: furado no bico, saltos desbastados dos lados, sola já quase toda gasta. — Mas, menino, como você conseguiu isso? Você vem chutando paralelepípedos da Vila Nova até o Grupo? “Paralelepípedos não, pensei cá comigo, mas tudo o resto: pedras, tampinhas, bagaço de laranja, casca de banana... E, claro, bola na Rua de Cima, bola na Rua de Baixo, bola no campinho do chafariz, bola no recreio, bola depois da aula, bola, bola, bola...”

Fotos


Formatura Grupo João Bráulio (1967). Na foto, entre outros (2a. fila): Silvinho, Geraldo, José Elias, Dito, Marcos, Guima.
(1a. fila): Rubens Nélson, Zé Luiz, Tomás, Alexandre.


 

Diretora, professoras e outros funcionários do Grupo João Bráulio Júnior.
Na foto, entre outros, Dona Olga, Dona Maria José, Dona Alzira...


 

Mensagem de Dona Marcela

Fonte foto professoras: Lambari em Textos e Fotos/Facebook
 
João Bráulio na WEB

Site do João Bráulio: http://escolajoaobraulio.com/index.html
Site/fotos do João Bráulio: http://escolajbjr.wordpress.com/ 
Centenário do João Bráulio (Youtube)
 

(*) Este trecho da narrativa No Grupo João Bráulio faz parte do livro Menino-Serelepe - Um antigo menino levado contando vantagem, uma ficção baseada em fatos reais da vida do autor, numa cidadezinha do interior de Minas Gerais, nos anos 1960.
 
O livro é de autoria de Antônio Lobo Guimarães, pseudônimo com que Antônio Carlos Guimarães (Guima, de Aguinhas) assina a série MEMÓRIAS DE ÁGUINHAS. Veja acima o tópico Livros à Venda.
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Enviado por Guimaguinhas em 30/04/2013
Alterado em 09/06/2016
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