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Dona Guilhermina, do Coleginho
Quem, no Coleginho, não levou puxão de orelhas da dona
Guilhermina ou rezou com a dona Edith?
(Do poema , "Da famosa aventura de ter sido criança em Aguinhas", 
extraído do livro Menino-Serelepe*)

O Coleginho
Para dona Guilhermina, que botou muito
aluno malandro na linha.


Na Aguinhas do meu tempo, quem tirava diploma do grupo em seguida devia cursar o ginásio, mas antes tinha de cumprir um quinto ano, que preparava o aluno para a prova de admissão. Desse modo foi que pulei do Grupo João Bráulio para o Instituto Santa Terezinha para poder chegar ao Ginásio Duque de Caxias. O instituto era particular, mas o pai, que já tinha dado uma melhora na vida, fez uma ginástica danada e com a ajuda da vó Margarida e da dona Catarina, e mais o desconto que obteve da dona Edith, conseguiu me manter lá por um ano.

O Santa Terezinha, chamado de Coleginho, que pouco tempo depois disso encerrou suas atividades, foi famoso e tradicional no passado, aqui pelas bandas do Sul de Minas. Funcionou como internato durante muitos anos pra moças e rapazes. Mas na minha época isso já havia acabado e ele já não era nem sombra do que fora. Quando deixou de operar, suas instalações tornaram à Prefeitura de Aguinhas, que lá funcionou por uns tempos até um terrível incêndio destruir completamente a antiga edificação e grande parte do acervo da administração municipal.



Dona Guilhermina , organizando os alunos do Coleginho, num desfile de Sete de Setembro**

Lendária também é a fama da dona Guilhermina, a rigorosa auxiliar de disciplina que danava à toa e costumava puxar as orelhas do alunato rebelde. Pelo menos era isso que corria por Aguinhas, que todos viam como ela tomava conta das turmas de internos, quando esses desfilavam pela cidade, uniformizados, em ordeira fila indiana, para realizar atividades extraclasse, principalmente religiosas, que o colégio era de orientação católica.

O Coleginho foi, assim, conhecido pelo rigor das normas de comportamento e pela ordem severa. Em razão disso, nas tradições dessa instituição constava que ninguém jamais em tempo algum tentou sequer soletrar quaisquer das conhecidas “versões colegiais” de certos hinos pátrios ou cançonetas de Natal... E, se por lá aparecia um fulustreco qualquer com fumaças de arruaceiro, querendo bagunçar o coreto, dona Guilhermina, depressinha, lhe dava tranco, uma pisa e lhe podava as asinhas. 

Desse modo é que, mesmo sofrendo com os joanetes, dona Guilhermina jogava duro com a malandragem e a indisciplina, e não havia pinta brava a quem ela não desse jeito, mas se deu bem comigo. Puxões de orelhas eu nunca levei. Ficar de frente para a parede também não, quer dizer, só uma vez, mas sem motivo justo... Sermão, aquele aranzel de meia hora, da laia do papapá-pepepé-pipipi, dessa falação só vi sendo aplicada em meninos desrespeitadores, que eu pintava o sete, mas aprendi a ser educado com os adultos. Claro, dos esculachos gerais ninguém escapava. Era quando, do alto da escada, a turma toda reunida, ela soltava o brado retumbante: — O que falta pra vocês, é isto! E passava rispidamente as pontas dos dedos na face para indicar “falta de vergonha”. E todomundo quieto, ninguém falava um a. E era pelo bimbalhar da sineta que se podia perceber o humor da dona Guilhermina. “Se soar aquela batida, turma dizia, corra que a mulher ‘tá braba hoje!”


Dona Edith Carneiro Rodrigues, diretora do Coleginho dos meus tempos de menino

Por nessa época, a diretora do Coleginho era dona Edith Rodrigues, que conhecia meu pai e com quem me dava muito bem e cuja letra, talhada a la Sion, eu sempre admirava nos assentos da minha caderneta. E rezação não faltava, que pra isso dona Edith mais dona Guilhermina botavam todomundo pra frente. E a gente na fila, impacientes, cochichando, bagunçando — cutuca o da direita, bole com o da esquerda, dá sardinha no da frente, cola rabo de papel num outro, lança em toda direção bolinhas de papel por um tubo vazio de caneta Bic —, no fundo rezando mesmo é pras orações terminarem, de olho nas correrias e brincadeiras do intervalo. Mas logo lá vinha a dona Guilhermina de carantonha, sacundindo um, aprumando outro, contendo os risinhos, impondo ordem, exigindo respeito... E era só ela dar as costas e tudo recomeçava... Mais uma vez o tio Mário (1) é que estava certo: O diabo enquanto reza, amola as moscas com o rabo!
.....................................


E sempre que dona Guilhermina passava por perto do sobradão, em direção ao Coleginho, Mãe Véia (2) , que era sua conhecida de longa data, perguntava sobre o neto, e ela dizia:

— Ah, Margarida, ele tem carinha de santo, mas é arteiro que só! Se for santinho do pé sujo, eu logo vou descobrir. E, aí, passo-lhe um sabão daqueles e deixo a criatura de pezinho limpo, imaculado...

(1) Tio Mário: Como escrevi na crônica Um tio divertido (aqui), tio Mário era "um tipo engraçado que, nos seus modos estentórios, gostava de contar casos, desferir adágios mordentes, discutir política e divertir a sobrinhada com borrachices, exagerações e batateiras sem conta."

(2) Mãe Véia. Modo por que os netos chamavam dona Margarida Guimarães, minha avó paterna.

Vocabulário de Aguinhas

A la Sion: À moda do Sion. Letra à moda do Sion: maneira elegante e caprichada de escrever ensinada às alunas dos colégios Sion. 
Fulustreco: Designação de alguém que não se quer nomear, ou cujo nome é ignorado; fulano.
Pinta brava: que dá mau exemplo, bagunceiro.
Bagunçar o coreto: Atrapalhar o que está funcionando bem e em ordem..
Aranzel: Arenga, lengalenga, discurso demorado e chato.
(Não) falar um a: Não dar um pio, ficar quieto
Laia: Espécie, tipo..

(*) O livro Menino-Serelepe - Um antigo menino levado contando vantagem  é uma ficção baseada em fatos reais da vida do autor, numa cidadezinha do interior de Minas Gerais, nos anos 1960.
 O livro é de autoria de Antônio Lobo Guimarães, pseudônimo com que Antônio Carlos Guimarães (Guima, de Aguinhas) assina a série MEMÓRIAS DE ÁGUINHAS. Veja acima o tópico Livros à Venda.
(**) Referência: Foto: Facebook de Luiz Antônio Siqueira Bibiano
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Enviado por Guimaguinhas em 02/12/2014
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