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Memórias familiares e da minha cidade natal
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Ilustração: Meus primos Mingo, Chica e Cida, e nossos primos, filhos de Estela Bruno, na Vila Nova dos anos 1950. Época de pobreza: as crianças todas descalças
MEMÓRIAS FAMILIARES - Antigas brincadeiras de criança
 
Esta é uma lembrança dos primos e primas com quem fui criado, que me ajudaram a superar a
ausência de irmãos e a amenizar a extremada vigilância de minha mãe. 

Como eu conto no Menino-Serelepe*, fui um filho único de mãe nervosa, criado na Vila Nova — um bairro pobre, de operários — nos anos 1950, morando perto de dezenas de primos e primas, filhos de meus tios Messias e Rubens Lobo.

Como os brinquedos eram raros, nos divertíamos com brincadeiras e jogos inventados, como descrevo na crônica A vendinha,  transcrita abaixo.

 
Eu e meu primo Tista, com minha mãe, tia Clélia e uma irmã desta, na Vila Nova dos anos 1950

 
Aspecto da rua na Vila Nova, onde eu morava

A vendinha

Na vendinha montada no porão da casa, Guima explicava:

Presta atenção, gente: coisa grande custa três; coisa do meio custa dois; coisa pequena custa um. 

Quem vai querê comprar essas coisa aí? disse a Graça, apontando as “mercadorias” que se encontravam arrumadinhas, dispostas em improvisadas prateleiras  de tábuas velhas, apoiadas sobre pilhas de tijolos. Eram tampinhas de garrafas, caixas de fósforos vazias, maços usados de cigarros, garrafas de vidro, latas velhas, louças partidas, pedaços de tijolos e cacos de telha, tudo lavadinho, limpinho, organizado e as mais caras embaladas com primor em quadradinhos de folha de taioba, delicadamente atadas com palha de milho, causa que a Cida era muito caprichosa.

— E tamém, Toninho, ninguém tem dinheiro! rematou duramente a Graça, que não era de muita esportiva. O Guima ficou triste com as palavras da Graça. Ora, por pura mamparra, ela nem tinha ajudado a montar a venda e só ficou no venha-a-nós... Ô monte de menina! Num varre um cisco! a criançada dizia. E, agora, ela ficava reclamando, queixando de barriga cheia, desfazendo das mercadorias, botando defeito. Ara, essa Graça quando fica de bico num sabe brincar!

— Tem dinheiro, sim, disse o Guima. Vem ver. E abriu uma caixinha de papelão, cheia de folhas, de diversos tamanhos.
— Dinheiro de foia! Quéqui vale isso? a Graça ainda retrucou. Se sêsse de nota de verdade, eu ainda topava brincá! finalizou emburrada. 

Mas o Guima não se deu por vencido e foi explicando as regras da brincadeira: — Folha de abacateiro vale três, folha de goiaba vale dois, folha de laranjeira vale um, que dessas tem muito no fundo da horta. Toma, já pode comprar. Dinheiro de pratinha hoje num tem, que as tampinhas vão ficar de mercadoria. Espera que eu vou ficar dentro da venda e ocês ficam de fora e vão pedindo que eu vou vendendo. Mas só vale dessas notas, não pode apanhar mais na horta. 


— E tamém não vendo fiado, só no dinheiro, que nem na venda do Bolachinha.

E a brincadeira rendia todo um dia de compras, trocos, dinheiro miúdo, trocas, dinheiro graúdo, reclamações, discussões: isso pode trocar, isso não pode. Esse tá reservado pra Cida, que ela falou primeiro. Pra breganhá esse tem que voltar mais dinheiro. Aquele custa duas folhas de abacateiro. Mas não era uma? Era, mas agora aumentou, que essas mercadoria tão acabando tudo!... Que embrulhar o quê, sô! Aqui não é venda de verdade. Num tem papel não. 

Era brincadeira inventada, coisa de meninos e meninas antigos e pobres, que (re)criavam um mundo simples, mas tão próprio, desataviado, mas tão gracioso, gozando da emoção e da ventura de fazer do pouco que se tem aquilo que não se pode ter.

Vocabulário de Aguinhas

Ficar no venha-a-nós: Ficar de braços cruzados, esperando que os outros façam as coisas.
Não varrer um cisco: Não fazer nada, por preguiça.
Mamparra: 
 Desculpas, escapatórias, pra ficar na vadiação, na vagabundagem.
Monte: Da expressão Ô monte! - Pessoa preguiçosa.
Breganhá: Corruptela de barganhar: trocar.

  (**) Esta história faz parte do livro Menino-Serelepe - Um antigo menino levado contando vantagem, de Antônio Lobo Guimarães, pseudônimo com que Antônio Carlos Guimarães (Guima, de Aguinhas) assina a coletânea HISTÓRIAS DE ÁGUINHAS. V. o tópico Livros à Venda.
 

 
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Enviado por Guimaguinhas em 13/04/2015
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